terça-feira, 9 de fevereiro de 2010






O apego é um sentimento que machuca como uma farpa que penetra na pele e quanto mais se tenta tirar mais ela fere.

Hoje ela sente doer bem no fundo, por trás do incomodo que causa a sensação da ausência, e por mais que a tentativa seja esquecer, ela não se esquece de lembrar, e a intensidade na qual tudo é fundido, a falta é uma certeza constante.
O seu maior inimigo é o pensamento, que permanece a cada instante confundindo e agredindo sua memória, que mesmo com sua fragilidade, tenta a todo momento se defender sem sucesso.
Amanhã, talvez tudo passe e o esquecimento venha através da lembrança, causando um acumulo de espasmos em seu mais profundo interior.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Ciclo





Caminho por entre espinhos, em cada andar.
Perco-me por entre passos curtos porém largos
Olho para o lado... Longe na distância que separa
A realidade ilusória construída por fragmentos de dor
E pedaços de sentimentos contraditórios.

Atravesso a tempestade de forma lenta e passiva
Meus olhos sangram ao enxergar,
O que não pode ser visto.
Perco os sentidos e a vida não mais é sentida,
Ela é expressa somente no instante vivido.

Dois caminhos se cruzam,
Duas estradas e um só pensamento,
A dúvida corrompe o caminhar,
Levando ao extremo da insanidade.

O que fazer se não há nada a ser feito?
O que mudar se a escolha não decide?
Esperar... Acordar.... Continuar a caminhar.....

sábado, 6 de fevereiro de 2010




Quando o tempo percorre,
uma infinidade de caminhos,
e os dias se tornam longos e inacabados,
o lugar onde se está,se torna mal situado.

Quando o futuro é imprevisível,
e o presente um fardo constante,
as horas parecem intermináveis e errantes.

Então a saída é não correr.
Permanecer e explorar,
os meios de se chegar onde se quer estar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010




Ela não se conhece.
Afinal,Quem ela é?
Várias pessoas em uma só, com vontades, idéias e aptidões diferentes?
Alguém que sente em excesso o que nem deveria ser sentido?
O seu mal é ser exageradamente sensível. Ser intensa em tudo o que faz, em tudo o que sente, e às vezes se perde em sensações que transbordam por entre seus poros e sufocam sua alma.
Ela não tem habilidade para se usar, não sabe “ser” entre os outros. Sendo como é entra em atrito com meros espectadores da vida alheia, não sendo como é, sente-se traída e farsante, onde sua vida se mostra inconstante.
Sua solidão é um fato, onde a essência permanece imutável.
Ela é um quebra-cabeça impossível de ser montado...e seus fragmentos permanecem espalhados preenchendo os espaços apertados.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Anti- depressivo






Ela se sente vazia. Sente que todos os seus sentimentos foram escondidos em algum lugar onde não tem acesso.
Ela não se reconhece, é uma estranha habitando um corpo desconhecido, onde necessita com urgência de reparos.
A morte a convida a experimentá-la e ela não sabe até quando conseguirá recusar tal convite, pois, a vontade de sentir seu sabor é uma curiosidade constante.
Ela está fora de controle e não consegue comandar seus atos e segue permanentemente desajustada, sem rumo e com sua imagem distorcida.
Ela precisa fugir de si e pedir socorro e gritar, até alguém prestar atenção e conseguir desvendar o que se passa.
Desistir e persistir são dúvidas constantes, onde uma batalha foi traçada, sem vencedor ou vencido, que corrói suas entranhas esmagando e dilacerando todos os seus sentidos vitais.
Ela é a coadjuvante da própria vida,e do primeiro ao ultimo instante sua atuação é ficar
escondida por detrás de um cenário vazio e obscuro.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sem visitas






Sem espaços, solitária em seu mundo fechado,
Protegida do lado de fora,
Seus dias não expressam nenhuma reação.

Na imensidão do limite,
Entre viver e sentir,
A sua volta existem apenas lugares inexplorados,
Pertences que nunca foram compartilhados.

Na ilusão de se perder de si,
Sem forças para prosseguir,
O melhor é ficar,
Permanecer no mesmo lugar,
E deixar a falsa proteção lhe guiar.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sem lugar





O que fazer quando nada mais importa?
Pra onde seguir se as portas se fecharam?
A escuridão tomou conta da sala,
Que esta fechada para visitação.

As janelas não se abrem,
A claridade insiste em penetrar pela fenda,
Que aos poucos diminui
Bloqueando a passagem do vento.

O nada corrompeu os sentidos
O vazio preenche os espaços
E a vida se esvaindo em meio ao caos da alienação.

Prosseguir é o mais difícil,
Desistir é possível,
Permanecer imutável na solidão de si mesmo
Com o tempo correndo ao contrário.

Perder o que não se tem,
Encontrar o que não se conhece,
Partir sem deixar marcas
Somente a procura do inexistente.




É insuportável o sentir.
Me exceder em medos e sensações vagas e incompreendidas
Como entender o que nem é sabido?
Existir em caos de ausência e urgências
Perder-se em encontrar o que não se pode perceber
A intensidade da falta
Somada a carência sufocada
Não dá pra compreender palavras em catarse
Palavras que fogem a normalidade
Que se perdem em utopias transformadas em peso
Subir sem descer... Enxergar sem ver.....
Perfurar o que está ferido sem receio da dor
Sem perder a frieza de um coração esmagado.

sábado, 30 de janeiro de 2010





Ela escreve cartas que jamais serão enviadas.
Relatando sentimentos escondidos em seu interior vazio e solitário.
São escritos sinceros e com tamanha profundidade, onde não há vagas para o pudor.
Como um simples pedaço de papel faz milagres?
Como palavras que jamais serão lidas, são regurgitadas de tal forma, onde no momento que seus sentimentos são expressos em palavras, sua alma se purifica?
Mas ela sofre, chora... A solidão já não lhe faz companhia,
Em um momento tão desafiador, ela dialoga com as linhas corridas e apagadas,
Vazias, mas que compartilha no instante em que surgem as primeiras frases.
Ela conta seus segredos mais profundos.
Nas entrelinhas a verdade aparece,
Porém, após longa conversa,
Tudo se perde.
Vira lixo.
Podridão.
E ela se cala.





Recordar o passado,
É lembrar de instantes vividos,
Que em fração de segundos,
Fizeram história....

Ela observa o tempo, que segue tempestuoso e contraditório.
Em seu interior somente lembranças,
Que deixam o presente de lado,
Trazendo consigo marcas que jamais cicatrizaram.

As feridas ainda sangram,
Apesar do sorriso que insiste em sair,
Pois o que passou, não somente foi dor,
Mas sim momentos que deram sentido a vida.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010





Hoje ela está só.Perdida em excesso de sentimentos.
Hoje seu mundo se resume a solidão de seu quarto vazio.
A escuridão tomou conta do que se chama vida,e a cegueira consumiu sua visão.
Entre quatro paredes,o medo consome seus pensamentos,e devaneios lhe perseguem sem nenhum pudor.
Dúvidas começam a permear em sua consciência,
Perguntas surgem deixando um rastro de feridas.
Sua essência está imersa,transbordando em superficie,
em completa exaustão do sentir,
afogando-se na lentidão de um tempo que não passa.

Apenas...





Quando nada mais restar,
apenas fique do meu lado.
Quando não houver mais sentido,
apenas segure minhas mãos,
caminhe do meu lado,
rumo a eternidade do momento,
em passos curtos,
sentindo a necessidade de estarmos juntos,
e sós..deixando de fora tudo o que nos faz sangrar,
e simplesmente deixar com o tempo,
a responsabilidade de nos tornármos um só.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Preto e Branco




Observe a fotografia:


Porque só banco é vermelho?
Porque a paisagem é cinza?
Vermelho:Paixão+dor=Solidão
Cinza:Interior sem vida,na exaustão do sentir.

Alguém Concorda?
Discorda?




"(...) Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta (...)"

(Caio Fernando Abreu)

Interrogação





Encontrar respostas,
quando não se sabe o que fazer,
Desistir,sem motivos para permanecer,
Onde?como?Pois tudo é névoa constante,
Os dias vazios e incoerentes,
A vida sentida de uma forma relevante,
e sem valor para corrigir erros insubistituiveis,
e verdades ressentidas no ego do ser.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sem lugar





Solidão,
consumida de toxinas,
esvaindo-se,alargando-se
perdendo a essência do ser,
em meio ao caos do existir,
e presa no caminho tentando viver.

Aí Tem

Por: Martha Medeiros

As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: "O que é que está havendo?". "Nada, tô na minha, só isso." Só isso???? Aí tem.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: "Que alegria é essa?" "Ué, tô feliz, só isso". Só isso????? Aí tem.

Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.

Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?

É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.

Quando a alimentação se torna um perigo.





Por conta de um padrão de beleza, que vê a magreza excessiva como possibilidade de felicidade e de vida bem sucedida, muitas mulheres acham que precisam fazer de tudo para atingir esse corpo considerado perfeito. A luta desenfreada por manequins cada vez menores pode começar ainda na infância, por volta dos oito ou nove anos.

As passarelas da moda mostram mulheres magérrimas desfilando as roupas dos estilistas mais badalados. A novela mostra a turma de mocinhas descoladas em biquínis mínimos e saias curtas, que vestem corpos cada vez mais esguios. As revistas estampam editoriais de moda inteiros com mulheres que esbanjam poucos quilos distribuídos em corpos altos e quase sem curvas. Esse é o padrão de beleza que é imposto à sociedade nos últimos anos – a mulher bonita deve ser magérrima e alta. De acordo com Eliane Pisani Leite, psicóloga e psicopedagoga, esse padrão de beleza, que está fora da realidade da maior parte do público feminino, é o responsável pelo desencadeamento de distúrbios alimentares, como a bulimia nervosa.

Pouco se sabe sobre essa doença, que é caracterizada por ataques repetidos de hiperfagia (consumo de grande quantidade de alimentos, de preferência hipercalóricos) e, em seguida, indução ao vômito, abuso no uso de purgantes ou períodos alternados de inanição. “A culpa gerada pela ingestão do alimento em excesso e o medo da elevação do peso faz com que essas pessoas se utilizem de medidas extremas para não engordar”, afirma Eliane.

A influência cultural tem sido apontada, atualmente, como o fator mais forte para desencadear a bulimia, mas há outros agravantes, como interação familiar, stress relacionado à sexualidade e a formação da identidade pessoal. “Muitas vezes, a própria mãe elogia as outras meninas que têm o corpo esguio, ou até mesmo cobra da filha que tenha um corpo perfeito e que coma pouco. A criança fará de tudo para atender à solicitação familiar”, diz a psicóloga, que afirma, ainda, que essa preocupação com o corpo perfeito tem começado cada vez mais cedo, por volta dos oito, nove anos. “A criança já começa a sonhar com o corpo magérrimo. Até as bonecas, com as quais as meninas brincam, são magrinhas”.

A maior incidência de pacientes com bulimia nervosa é de mulheres adolescentes e adultas jovens. De cada dez pacientes, nove são mulheres. A psicóloga afirma que isso se dá por uma característica feminina de competição e busca desenfreada pela perfeição. “A menina, ainda na escola, começa a querer ser melhor e mais bonita do que a coleguinha ao lado. E, hoje em dia, ser bonita é ser magra”. Algumas profissões em particular parecem apresentar mais riscos, como no caso de jóqueis, atletas, modelos, manequins e pessoas ligadas à moda. “Esses ambientes cobram ainda mais as pessoas quanto ao controle de peso”, diz Eliane. “A menina que sonha com a carreira de modelo, por exemplo, pode, com mais facilidade, ter essa preocupação exagerada com o corpo antes da hora”, complementa.

A ajuda deve começar em casa

>>VEJA MAIS:


Fonte:
Bulimia





Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser...
Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!!
Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso?

(Clarice Linspector)

sábado, 23 de janeiro de 2010

A vida à beira de um abismo

Por: Naiara Magalhães



Ana, de 26 anos, é uma jovem de feições delicadas. A pele alva contrasta com os cabelos escuros, lisos e curtos. Ela é do tipo que sempre busca as palavras exatas para expressar suas opiniões e sentimentos. Domina quatro idiomas e estuda numa das melhores universidades do país. Bonita e inteligente, Ana seguiria um caminho sem relevos ríspidos, não fosse o abismo. Ele se abre à sua frente na forma de um vazio que a tudo engole, da sensação de abandono e do medo de perder os próprios contornos, aparentemente tão bem delineados. Ana sofre, e sua dor lhe parece inextinguível. Num ato de coragem, a jovem concordou em dar os depoimentos que constam desta reportagem:

– Já perdi a conta de quantas vezes tentei me matar. A situação mais séria data de quatro anos atrás. Minha mãe me encontrou desmaiada no chão do quarto, depois que tentei me enforcar. Aos 14 anos, me joguei na frente de um caminhão. Fui salva por um estranho, que me puxou de volta para a calçada. Já cortei várias vezes os pulsos e, em outras, consumi quantidades exageradas de remédios. Para mim, a vida é uma obrigação.

Aos 20 anos, Ana foi diagnosticada com distúrbio fronteiriço da personalidade – é considerada uma borderline, para usar a terminologia em língua inglesa. Seus portadores têm imensa dificuldade em se incluir até mesmo nos amplos limites da nova normalidade. O Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais, o guia das doenças psiquiátricas da Associação Americana de Psiquiatria, caracteriza a doença com uma lista de nove sintomas: sensação constante de vazio; acessos injustificáveis de raiva; alternância constante e extrema de humor; relações interpessoais intensas e instáveis; comportamento impulsivo; ideias frequentes de suicídio ou automutilação intencional; episódios de paranoia; autoimagem instável; e esforços desmedidos para evitar um abandono verdadeiro ou imaginado. Nada, porém, define mais integralmente os fronteiriços do que a metáfora usada pela psicóloga americana Marsha Linehan, professora da Universidade de Washington e referência mundial no estudo da doença: "Eles são o equivalente psicológico dos pacientes vítimas de queimaduras de terceiro grau. Não têm nenhuma ‘pele emocional’ para protegê-los. O mais leve toque ou movimento pode causar-lhes muita angústia". É como se vivessem o tempo todo "imersos em tempestades emocionais que nunca se acalmam", escreve o psiquiatra e psicanalista israelense Yoram Yovell, no livro O Inimigo no Meu Quarto – E Outras Histórias da Psicanálise (editora Record).

O termo borderline para designar o paciente que sofre desse transtorno psiquiátrico foi usado pela primeira vez no fim da década de 30, pelo médico e psicanalista americano Adolph Stern (1878-1958). Acreditava-se, na ocasião, que seus portadores estavam na "fronteira" entre neurose e psicose. A definição do problema como um distúrbio de personalidade caracterizado por extrema instabilidade emocional e impulsividade foi consolidada entre as décadas de 60 e 70, por Otto Kernberg, psicanalista austríaco, e John Gunderson, psiquiatra americano. As estatísticas sobre a incidência dos fronteiriços na população variam de 2% a 6%. A levar em conta a proporção máxima, eles formariam um contingente semelhante ao dos que sofrem de transtornos da ansiedade, que ficam em terceiro lugar na lista dos distúrbios mentais mais comuns.


Com o aperfeiçoamento dos exames de imagens, foi possível verificar que os fronteiriços apresentam deficiências no funcionamento de uma área do cérebro conhecida como lobo frontal. Localizada bem acima dos olhos, ela é responsável, entre outras funções, pela elaboração do pensamento e pelo planejamento das ações. Alterações nessa porção cerebral podem comprometer o juízo crítico e contribuir para o descontrole emocional. Mas, como nem todos os que exibem tais falhas no lobo frontal são fronteiriços, a conclusão é que as influências familiares e sociais são determinantes. Isso não significa que cada borderline tenha sido agredido ou negligenciado na infância. A combinação de uma criança detalhista com uma família perfeccionista, por exemplo, pode contribuir para a formação de um adulto que não consegue se sentir satisfeito com suas realizações, não conclui projetos e, assim, desenvolve uma sensação crônica de vazio – aspecto central do transtorno.

A sensação de abandono é comum a todos os fronteiriços. É como se reproduzissem continuamente o sentimento da criança pequena que teme a mais breve ausência dos pais – fonte de nutrição, afeto e amparo – como uma perda eterna. "Em certo sentido, a criança cresce e aprende a ser independente quando consegue procurar a imagem dos pais dentro de si, e não à sua volta", diz Yovell, em O Inimigo no Meu Quarto. A partir do momento em que ela não consegue realizar essa interiorização, está dado o primeiro passo para a formação de um adulto doentiamente carente. Às vezes, no entanto, o sentimento de rejeição é fruto de um abandono real (veja o depoimento de Marta abaixo).

No desespero para não se sentir desamparado, o fronteiriço costuma "grudar" em seus amigos, médicos, cônjuges ou parentes – sufocando-os e, consequentemente, afastando-os. Como o fronteiriço só consegue se definir a partir do outro, ele muda constantemente de área de estudo, religião e estilo de vida, ao sabor das influências dos amigos ou familiares. "Assumir a identidade de pessoas próximas é uma tentativa de evitar a rejeição e o abandono que eles tanto receiam", explica o psiquiatra e psicoterapeuta Erlei Sassi, coordenador do Ambulatório Integrado de Transtornos de Personalidade e do Impulso do Hospital das Clínicas de São Paulo. Esse comportamento típico do borderline é semelhante ao do adolescente. Diz a psicóloga Jonia Lacerda, do Ambulatório de Família do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo: "É como se eles vivessem uma adolescência vinte anos mais longa do que as pessoas sem o transtorno". Vinte anos não é força de expressão. Por motivos ainda insondáveis, a partir dos 40 anos, boa parte dos pacientes tem atenuado não só esse como os demais sintomas que definem a sua condição. O problema, claro, é chegar até lá razoavelmente inteiro. Tamanha insegurança impede a construção de uma autoimagem de fato positiva. Diz Ana:

– Só consigo enxergar os meus defeitos. O reconhecimento das coisas que faço e tenho de bom (se é que há algo de bom em mim) tem de partir necessariamente dos outros. E não pode ser qualquer um. Na faculdade, por exemplo, o aval de um professor só tem valor se ele estiver entre os mais conceituados. Se eu parar para pensar, sei que isso é um absurdo, que impede que minha vida flua. Mas eu simplesmente não consigo evitar. Esse tipo de pensamento toma conta de mim e vai crescendo, crescendo... É um círculo vicioso infernal.

Para cumprir a obrigação de viver, é comum que o fronteiriço lance mão de aditivos. De acordo com um levantamento feito em 2008 pelo Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo, dos Estados Unidos, 42% dos fronteiriços são dependentes de álcool e 30% abusam das drogas. Muitos não conseguem levar os estudos superiores até o fim. Boa parte não se casa ou é divorciada.

Devido ao fato de ser um transtorno de personalidade, ele pode ser confundido, no início, com um temperamento mais impulsivo. Por esse motivo, um paciente leva, em média, de cinco a dez anos para ser diagnosticado como fronteiriço. "Em geral, os doentes chegam ao consultório por causa de problemas decorrentes do transtorno – como abuso de álcool e drogas, depressão, automutilação ou bulimia", diz Geraldo Possendoro, psiquiatra e psicoterapeuta, professor da Universidade Federal de São Paulo. O diagnóstico só costuma ser fechado a partir dos 18 anos, quando a personalidade da pessoa já está razoavelmente definida. "Só assim os médicos conseguem ter certeza de que o comportamento errático não está circunscrito à adolescência, com todas as suas turbulências emocionais e comportamentais", diz Fernanda Martins, psiquiatra e psicoterapeuta do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Ao contrário do que ocorria num passado não muito distante, hoje a doença tem tratamento. A questão é que os fronteiriços resistem muito aos medicamentos e às terapias. Com a palavra, Ana:

– Eu só aceitei me internar e me tratar de fato depois que tentei me enforcar. Quando o médico me disse, de maneira bastante firme, que, no fundo, a tentativa de enforcamento era um pedido de ajuda, eu cedi. No fundo, o que me move é a esperança. E é essa esperança que me faz querer ficar bem, seguir na terapia e tomar a medicação. São oito comprimidos por dia – um de antipsicótico, três de estabilizador de humor e quatro de antidepressivo. Eu estou melhorando. Aos poucos, mas estou.
A relação que os fronteiriços estabelecem com seus médicos e psicoterapeutas é bastante peculiar. Eles agem o tempo todo como se estivessem testando a dedicação e a fidelidade de quem os trata. Durante a sua gravidez, a médica Fernanda, por exemplo, teve de ser cuidadosa para evitar que suas pacientes se sentissem preteridas. "Eu costumo dizer que o fronteiriço requer um profissional muito persistente", diz o psiquiatra e psicoterapeuta Sassi. E com um sangue frio de congelar nas veias. Certa vez, no meio da noite, ele atendeu o telefonema de uma paciente. Com voz tranquila, quase infantil, ela perguntou: "Doutor, a veia jugular fica do lado direito ou esquerdo do pescoço?". Os sinais de melhora às vezes são tão sutis que podem escapar ao profissional menos experiente. "Fico extremamente satisfeito quando um paciente me telefona para dizer que está triste, em vez de chegar ao consultório com o braço marcado por cortes", afirma Sassi. "Ao me falar de sua tristeza, ele mostra que finalmente aprendeu a expressar seus sentimentos de maneira saudável." E, quem sabe, possa enveredar pelo caminho da nova normalidade, em que não cabe a ilusão da ausência completa de tormentos.



Fonte:
Revista VEJA